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segunda-feira, 3 de março de 2008  |  Por: MuSSuM

Simbologia no conto: Branca de Neve e os Sete Anões

"Uma vez, no auge do inverno, quando flocos de neve caem como plumas das nuvens, uma rainha estava sentada à janela de seu palácio, costurando as camisas de seu marido. Nisto, levantou os olhos, espetou um dedo e caíram gotas de sangue na neve. E vendo o vermelho tão bonito sobre o branco, a rainha pensou:-- Queria ter uma filha tão alva quanto a neve, tão vermelha como este sangue e tão negra como o ébano desta janela. Pouco tempo depois lhe nasceu uma filha que era branca como a neve, vermelha como o sangue e com uns cabelos negros como ébano. Por isso lhe puseram o nome de Branca de Neve. Mas, quando ela nasceu, a mãe morreu..." (1)
 

Logo de saída a história de Branca de Neve nos indica que o ponto de vista a ser tomado para entendê-la, mais profundamente, é o iniciático. Chama atenção que o personagem central, Branca de Neve, sintetize em si as três cores que simbolizam, no Hermetismo (2), as três etapas da prática espiritual estabelecida por aquela doutrina: o negro, o branco e o vermelho que correspondem, respectivamente, ao nigredo, albedo e rubedo dos alquimistas. Além disso, os sete anões, que trabalham numa mina buscando ouro, são uma clara alusão a outro aspecto do simbolismo alquímico, que nos informa ser a meta do alquimista a transformação dos metais
impuros em ouro.



Não é também por acaso que a história se divide claramente em três partes. Na primeira, Branca de Neve vive no castelo comandado pela rainha má desde o nascimento até quando foge do caçador pela floresta; na segunda, vive na casa dos sete anões até se engasgar com a maçã envenenada; na terceira, vive no castelo do príncipe unida com ele, "felizes para sempre". É evidente aqui a aplicação do simbolismo do número três aos graus do conhecimento e, por extensão, às três fases da realização na via espiritual.

A essência e o objetivo da via espiritual iniciática é a união com Deus. Essa união só é possível porque ser homem é sê-lo à imagem e semelhança de Deus. O mito de Adão e Eva nos ensina que depois da queda, este aspecto essencial do humano tornou-se ineficiente. Por isso, toda e qualquer tentativa de reintegração da forma humana no seu Arquétipo infinito e divino, (a volta ao paraíso), só é possível se antes for regenerada à pureza do estado original humano. Tomado em sua significação espiritual, a transmutação do chumbo em ouro é nada mais nada menos do que a reintegração da natureza humana na sua nobreza original. (3)


De modo análogo ao relato do Gênesis, o conto nos informa que no princípio viviam em harmonia complementar um par de opostos, o Rei e a Rainha-Mãe boa. Com a morte da Rainha-Mãe e após o nascimento de Branca de Neve instaura-se um desequilíbrio, uma espécie de afastamento da unidade, que é representado pela chegada da rainha má. Assim, depois da morte da mãe, Branca de Neve perde sua dignidade de princesa no castelo do pai e se torna uma serva da madrasta má. Na linguagem da história, isso corresponde a uma queda similar àquela descrita pelo Gênesis no mito de Adão e Eva. Agora, filha de um viúvo, Branca de Neve, apesar de ter a marca das três cores, que a qualifica como um ser especial, cai numa função subalterna dentro do mundo profano, marcado pela dualidade, pela dispersão, pelas paixões e dominado pela rainha má. O conto nos mostra que é necessário reunir em si o disperso, reintegrar-se em retiro além da floresta e nas montanhas, para depois se unir ao Espírito, que aqui é sem dúvida figurado pelo Príncipe.


A rainha madrasta descobre que Branca de Neve é a mais bela quando esta última faz sete anos. A rainha má é obcecada com a comparação quantitativa do aspecto estético e, portanto, apenas sensorial da realidade. Ela é incapaz de perceber qualquer beleza interior. A unidade do belo, do bem e da verdade que todas as tradições religiosas e filosóficas proclamam da maneira mais veemente inexiste na rainha má, por causa de uma concentração exagerada da inteligência dela no aspecto mais externo da realidade material.

No íntimo do ser humano, o bem é bonito e o belo é verdadeiro (4). Significativamente, e por compensação, a rainha má manda um caçador matar Branca de Neve e trazer-lhe, exatamente, o coração para que ela o coma. O coração, que no simbolismo astrológico é representado pelo Sol e no alquímico pelo ouro, é considerado, nas mais diversas tradições, a morada do espírito, o centro (anatômico e simbólico) do ser onde habita o divino. No entanto, o coração que a rainha come (ou que ela pode comer) é o de um animal (5), que o caçador compadecido sacrifica no lugar de Branca de Neve. Consciente, daí por diante da enorme ameaça de destruição existente no mundo da rainha, e insatisfeita com ele, a alma qualificada foge correndo pela floresta. Sua vida acaba num mundo e se inicia em outro. Mas, essa iniciação não acontece antes que ela passe por uma provação que se revela, no fundo, uma purificação.


A floresta e as provas antes da iniciação

Vamos ver o que nos ensina o texto.

"A pobre Branca de Neve ficou sozinha, e transida de dor se pôs a caminhar, no escuro da floresta, por entre as árvores sem saber que rumo tomar. De repente começou a correr assustada com o barulho dos trovões, com o clarão dos relâmpagos e com a chuva que começava a cair. Correu saltando pedras e atravessando sarças; e os animais selvagens pulavam quando ela passava, mas não lhe faziam mal Ela correu até seus pés se recusarem a continuar, e como já era noite e viu uma choupana ali perto, entrou nela para descansar. Na choupana era tudo muito pequeno, porém nada podia ser mais limpo ou mais gracioso. No centro, via-se uma mesa coberta com uma toalha branca, e nela estavam sete pratinhos, cada um com sua colher, sua faca e seu garfo; havia também sete copinhos do tamanho de dedais. De encontro à parede se viam sete pequenos leitos, numa só fileira cobertos, cada um deles, com lençóis brancos como a neve."

O texto parece sugerir que as provações iniciáticas são ritos preliminares ou preparatórios da iniciação propriamente dita. Elas constituem seu preâmbulo necessário, de tal sorte que a iniciação mesma é como se fosse sua conclusão ou seu fim imediato. É bom lembrar que elas tomam a forma de viagens simbólicas em certas tradições e podem mesmo se apresentar como uma busca ou procura, que conduz o indivíduo das trevas do mundo profano para a luz da iniciação. No fundo, as provações são essencialmente ritos de purificação; e essa é a explicação verdadeira para essa palavra num sentido claramente alquímico. A corrida de Branca de Neve pela floresta representa de modo muito preciso exatamente isso: uma viagem do mundo profano - figurado pelo castelo da rainha má, que é um mundo de maldade e mentira, o reflexo da mentalidade dela mesma - até o local claro, limpo e protegido, nas montanhas, onde se localiza a casa dos sete anões. É uma viagem do mundo exterior para um outro interior, onde ela vai encontrar e aprender a lidar com as sete faculdades de conhecimento corporal que estão esquecidas no mais íntimo dela mesma.

A chuva que aparece na nossa história mostra que o essencial nos ritos de purificação é que eles operam pelos "elementos", entendidos no sentido cosmológico do termo, pois que elemento implica em ser simples; e dizer simples é o mesmo que dizer incorruptível. A água é um dos elementos mais usados nos ritos de purificação de quase todas as tradições. Talvez porque ela simbolize a substância universal. Notem a presença da limpeza e da cor branca na casa dos anões, indicadoras de que, depois da corrida pela floresta, a purificação se completou.

A seqüência do texto nos conduzem em seguida, coerentemente, para a luz.

"Depois, estava tão cansada que se deitou numa das camas, mas não se sentiu à vontade. Experimentou outra e era muito comprida; a quarta era muito curta; a quinta dura demais; porém, a sétima era exatamente a que lhe convinha, e metendo-se nela se dispôs a dormir, não sem antes ter-se encomendado a Deus. Quando era noite regressaram os donos da choupana. Eram os sete anões que sondavam e perfuravam as montanhas em busca de ouro. A primeira coisa que fizeram foi acender sete pequenos lampiões, e imediatamente se deram conta - depois de iluminada toda a habitação - de que alguém havia entrado ali, já que não estava tudo na mesma ordem em que haviam deixado. (...) observando seus leitos gritaram: - Alguém deitou nas nossas camas! Mas, o sétimo anão correu à dele, e vendo Branca de Neve dormindo nela, chamou os companheiros que se puseram a gritar de assombro e levantaram seus sete lampiões iluminando a menina."

Depreende-se desse trecho da história que, desde o ponto de vista das iniciações, a purificação tem como fim conduzir o ser a um estado de simplicidade indiferenciada (7) comparável com o da matéria prima, para usar uma expressão da alquimia, afim de que ele se torne apto a receber o Fiat Lux iniciático; é preciso que a influência espiritual, cuja transmissão vai dar a ele essa iluminação primeira, não encontre nenhum obstáculo devido a pré-formações desarmônicas provenientes do mundo profano. Relaxada e entregue Branca de Neve não oferece nenhuma resistência à luz dos sete lampiões dos anões.

Os anões


Abandonar o mundo escuro e encontrar a luz tem suas conseqüências. Existem algumas indicações, sobre quais são essas conseqüências da "saída da floresta escura", nos primeiros versos do Inferno, na Divina Comédia de Dante Alighieri. Ele mesmo informa que a floresta representa o estado de vício e ignorância do homem. Estar perdido na floresta é o mesmo que estar perdido no labirinto da multiplicidade da manifestação. Ora, a saída da floresta escura, ou, o que dá no mesmo, a morte ao mundo profano, implica logicamente numa mudança de mentalidade que surge como a primeira parte da fase inicial de mudança no direcionamento geral do ser, que é necessária para alcançar um grau mais elevado de clareza ou iluminação (7). É evidente que a primeira providência prática, para alcançar essa mudança mental, está na revisão dos pontos de vista e das convicções pessoais adquiridas, dos hábitos mentais, dos coágulos das emoções negativas, etc.

Por isso mesmo, Branca de Neve deve se submeter a certas condições e normas para poder ficar na casinha dos anões. As condições para ela ficar na casa eram: primeiro, seguir os conselhos deles para não abrir a porta para ninguém, porque a rainha má com o poder de se disfarçar e enganar, poderia atacá-la e matá-la; e segundo, manter a casinha sempre limpa e arrumada. Essa disciplina (em Branca de Neve) e essa limpeza interior (na casa) são um espécie de treino para dominar todas as tendências obscuras e irracionais da alma, ambas necessárias para a realização do ouro interno, na sua pureza e luminosidade imutáveis. Isto corresponde ao que a alquimia chama a extração dos metais nobres a partir dos metais impuros por meio da intervenção dos elementos solventes e purificadores, como o mercúrio e o antimônio, em conjunção com o fogo, e que se efetua inevitavelmente contra a resistência e a revolta das forças caóticas e tenebrosas da natureza.

Ora, os anões são os conhecedores da técnica que permite a realização desse trabalho, porque eles sabem extrair ouro da montanha. Na alma do homem são como que lampejos primitivos de consciência, de iluminação e de revelação. São gênios da terra. Como o texto nos diz que são sete, eles correspondem exatamente aos sete metais que os alquimistas designavam pelos mesmos símbolos usados na astrologia para os sete planetas. Sol - ouro, Lua - prata, Mercúrio - mercúrio, Vênus - cobre, Marte - ferro, Júpiter - estanho e Saturno - chumbo. Essas correspondências colocam em evidência a relação que existe entre a alquimia e a astrologia e que se fundamenta no princípio que a Tábua de Esmeralda exprime assim: "O que está embaixo é semelhante ao que está em cima". Por isso, Saturno, que é o planeta mais alto para Astrologia pois corresponde ao sétimo céu, eqüivale, na alquimia, ao chumbo, que está no ponto mais baixo da hierarquia. A hierarquia dos planetas é ativa, enquanto a dos metais é passiva.

Ora, o metal é uma matéria inerte e, portanto, não pode simbolizar uma faculdade cognitiva ou volitiva como os planetas. Eles são, antes, a expressão - por causa da sua natureza estática e amorfa - de um estado de consciência similarmente estático. Isto é, um estado de consciência interno, sem contornos mentais. Figuram a consciência do próprio corpo; a apreensão de sua forma psíquica. É desse "metal" que o alquimista deve extrair a alma metálica e o espírito metálico.

A consciência corporal caótica e opaca encadeada pelas paixões e pelos hábitos, constitui exatamente o chamado metal vil. Nela, a alma e o espírito estão como que sufocados, obscurecidos e misturados à terra negra. Por outro lado, a consciência corporal iluminada - o metal nobre - é em si mesma um modo espiritual de existência. A alma deve ser, primeiramente, extraída do metal vil, dizem os alquimistas. Depois o resíduo corporal deve ser purificado pelo fogo até que ele se reduza a cinzas. Então, a alma será de novo unida a ele. Quando o corpo é assim dissolvido na alma, de tal modo que o conjunto constitui uma pura matéria, o Espírito age sobre a alma e lhe confere uma forma indestrutível. Esse tipo de realização é o objetivo mesmo da alquimia. E é a expressão mais profunda do simbolismo do ouro (8). Ele, o ouro, é a luz que se tornou corpo. Os alquimistas descrevem freqüentemente que o objetivo da obra deles é a volatilização do sólido e a solidificação do volátil ou a espiritualização do corpo e a corporificação do espírito.

Mas, voltemos à parte do texto que descreve na linguagem simbólica e, portanto, mais rica do conto essas mesmas coisas.

"Quer ser encarregada de nossa casa? Será nossa cozinheira, fará as camas, lavará a roupa, coserá, fará meias para nós e conservará tudo limpinho e arrumado. Se trabalhar bem ficaremos com você, não terá falta de nada e será nossa Rainha. Branca de Neve respondeu: - Aceito, de todo meu coração! E foi assim que ela ficou com os anõezinhos e tomou conta da casa deles. De manhã os anões saiam pelas montanhas para procurar ouro, e quando regressavam, à noite, encontravam a comida preparada. Durante o dia a menina ficava sozinha, e por isto os anões nunca deixavam de lhe dizer quando saiam: - Tome cuidado com sua madrasta, que mais cedo ou tarde acabará sabendo que você está aqui, e não deixe entrar ninguém."

O tempo que Branca de Neve está na casa dos anões é um tempo de treinamento, disciplina interior e aprendizado. É nesse período, durante o qual acontecem seus três perigosos encontros com a madrasta disfarçada, que ela aprende a usar a sabedoria representada pelos anões (que no fundo está nela mesma) para lidar com os elementos ainda não ordenados que tem dentro de si.

As práticas, ascéticas, rituais ou devocionais - implícitas no processo iniciático - preparam para o contato com o poder aperfeiçoador e unificador do Espírito, cuja presença exige que a substância psíquica tenha se tornado um todo unificado. Os elementos mais ou menos dispersos do psiquismo são, desse modo, compelidos a juntar-se. E, alguns deles chegam enraivecidos, vindos de lugares ocultos, remotos ou obscuros com os poderes inferiores ainda agarrados a eles. É mais preciso, portanto, dizer, neste caso, que é o inferno que ascende do que afirmar que é o praticante que desce nele. Quem sai do seu castelo enraivecida pela inveja e vai procurar Branca de Neve é a madrasta. Essa irrupção das forças inferiores conduz a uma verdadeira batalha que tem a alma como campo de luta.

As três tentativas da rainha má para matar Branca de Neve mostram, que no começo do caminho os elementos psíquicos pervertidos estão de certo modo adormecidos e afastados do centro da consciência, do mesmo modo que a madrasta está no castelo, longe da casa dos anões. Eles devem ser primeiramente acordados, pois não podem ser redimidos e transformados dentro do seu sono. E é no momento em que despertam, num estado de ódio enfurecido contra a nova ordem, que existe sempre o risco de que eles se apossem de toda a alma. O que não acontece no conto porque os anões, que são as partes de conhecimento da alma, não são atingidos pela rainha e por isso salvam a princesa nas duas ocasiões em que a madrasta disfarçada tenta matá-la. A primeira através de sufocação com um espartilho apertado e a segunda com um pente envenenado na cabeça.

Esses episódios são descrições simbólicas da transformação do metal vil em metal nobre. As faculdades corporais de conhecimento, representadas pelos anões, começam a atuar de modo consciente e é através de seu uso que Branca de Neve se salva por duas vezes.


A morte de Branca de Neve


A palavra morte deve ser compreendida neste caso no seu sentido mais geral, segundo o qual pode-se dizer que toda a mudança de estado, qualquer que seja, é ao mesmo tempo uma morte em relação a um estado antecedente e um nascimento em relação ao estado seguinte. A iniciação é geralmente descrita como um segundo nascimento que implica, logicamente, na morte para o mundo profano. É bom lembrar que toda mudança de estado deve se passar nas trevas, no escuro, o que explica o simbolismo da cor negra quando relacionada a esse assunto. O candidato à iniciação deve passar pela obscuridade completa antes de alcançar a verdadeira luz. É nesta fase de obscuridade que se dá a chamada "descida aos infernos", que é uma espécie de recapitulação dos estados antecedentes, através da qual as possibilidades relacionadas ao estado profano serão definitivamente esgotadas, afim de que o ser possa, daí por diante, desenvolver livremente as possibilidades de ordem superior que ele carrega consigo e cuja realização pertence propriamente ao domínio iniciático.

No nosso conto, Branca da Neve "morre" ou muda de estado, depois que come uma maçã. Come? Não. Ela se engasga. Os anões conseguem ressuscitar Branca de Neve por duas vezes, mas não são competentes para fazê-lo quando se trata da maçã porque, como explicaremos em seguida, ela representa, não uma provação de ordem corporal, e sim uma do domínio da inteligência, pois que é o fruto símbolo do conhecimento.


A maçã


Segundo Paul Diel (10), a maçã, por sua forma esférica, significaria os desejos terrestres ou a complacência em relação a esses desejos. Sem dúvida, essa interpretação é verdadeira e explica um dos aspectos do simbolismo da maçã em Branca de Neve. Mas, desde a maçã de Adão e Eva até o pomo da Discórdia, passando pelo pomo de ouro do jardim das Hespérides, encontramos, em todas as circunstâncias, a maçã como um meio de conhecimento. Ela está carregada de duplicidade pois, ora é o fruto da Árvore da Vida que está no meio do Paraíso e ora é o fruto da Árvore da Ciência do bem e do mal que, paradoxalmente, lá também se encontra. Pode ser, portanto, conhecimento unificador que confere a imortalidade ou conhecimento desagregador que provoca a queda.

Se examinamos seu simbolismo, também, desde o ponto de vista de sua estrutura física, podemos constatar novamente essa duplicidade característica dos meios de conhecimento. Assim, ela é símbolo do conhecimento, pois um corte feito perpendicularmente ao eixo do pedúnculo nos revela que, no seu íntimo, está um pentagrama, símbolo tradicional do saber, desenhado pela própria disposição das sementes. Por outro lado, o pentagrama é também um símbolo do homem-espírito e desde esse ponto de vista ela indica, ao mesmo tempo, a involução do espírito dentro da matéria carnal. O texto estabelecido por Grimm nos conta:


"A Rainha disfarçada bateu à porta, e Branca de Neve enfiou a cabeça e disse:
- Não posso deixar ninguém entrar. Os sete anões me proibiram isso.
- Pior para mim, disse a velha, pois terei de voltar para casa com minhas maçãs. Mas, olhe, eu lhe dou esta de presente.
- Não tenho coragem de comer, respondeu Branca de Neve.
- Será que está com medo? gritou a velha.
- Olhe vou parti-la em duas metades; você come a parte de fora e eu comerei a de dentro. ( A maçã estava preparada com tanta habilidade que só as partes vermelhas estavam envenenadas)."

Os anões não enterraram Branca de Neve, mesmo depois que a encontraram envenenada pela maçã e não conseguiram ressuscitá-la, porque depois de passar por essa fase, albedo, não se volta mais ao nigredo, pois o processo segue em frente para o rubedo, que é a união com o Espírito representado pelo príncipe. As cores alquímicas e seu simbolismo (indicadas também pelas aves que lamentam Branca de Neve) são claramente mostradas na transcrição que se segue.

"Quando os anõezinhos regressaram à noite encontraram Branca de Neve estendida no chão e aparentemente morta. Levantaram-na e procuraram nela alguma coisa venenosa, desapertaram-lhe o vestido e até lhe despentearam os cabelos e a lavaram com água e vinho. Mas, de nada serviu. A querida menina parecia realmente morta. Estenderam-na então num ataúde e os sete anões colocaram-se à sua volta e choraram sem cessar durante três dias e três noites. Depois quiseram enterrá-la, mas vendo-a tão fresca e com as faces tão coradas disseram uns para os outros:

- Não podemos enterrá-la na terra negra.

E encomendaram uma caixa de cristal transparente. Através dela se via o corpo de Branca de Neve por todos os lados e os anões escreveram seu nome em letras douradas no vidro, dizendo que ela era filha de um rei. Depois colocaram a caixa de cristal no alto de uma rocha e sempre ficava ali um deles vigiando. Até os animais selvagens lamentaram a perda de Branca de Neve: primeiro chegou um bufo, depois um corvo e por último uma pomba. Durante muito tempo Branca de Neve permaneceu placidamente estendida em seu féretro. Nada mudou em seu rosto e parecia que estava adormecida, pois continuava negra como ébano, branca como a neve, vermelha como o sangue."

Como dissemos acima, por sua forma esférica a maçã é um símbolo do Mundo. Mas, o que a rainha má oferece a Branca de Neve é o aspecto mais externo, mais atraente e venenoso deste Mundo com o qual ela tem que entrar em contato para dominá-lo. A história nos conta que, apesar de aparentemente morta, Branca de Neve mantinha o mesmo frescor de pele e a beleza luminosa do tempo em que estava viva. Isso nos indica que a alma, com o corpo transfigurado e dissolvido nela, está pronta para que o Espírito aja sobre ela e a torne indestrutível.



"Passaram-se meses, e aconteceu que o filho do rei viajava pelo bosque, e entrou na casa dos anões para passar a noite. Não tardou a dar-se conta do ataúde de cristal no alto da rocha, contemplou nele a bela jovem que repousava, e leu a inscrição dourada. Depois que leu, disse, dirigindo-se aos anões:

- Dêem-me esta caixa, e pagarei o quanto quiserem por ela.
Mas os anões responderam:
- Não venderemos nem por todo o ouro do mundo.
- Então quero-a de presente, disse o príncipe, porque não poderei viver sem Branca de Neve.

Os anões vendo a ansiedade com que ele fazia o pedido, ficaram compadecidos, e acabaram entregando a caixa, e o príncipe ordenou a um dos seus servos que a carregasse nos ombros. Mas, aconteceu que este tropeçou numa raiz, e com o baque, saltou no chão o pedaço da maçã envenenada que estava na boca de Branca de Neve. Imediatamente esta abriu os olhos e levantando a tampa da caixa de cristal, voltou a si, e perguntou:
- Onde estou eu ?
- Está salva e a o meu lado! respondeu o príncipe cheio de alegria. E lhe contou o que havia sucedido, terminando por lhe suplicar que o acompanhasse ao castelo do rei seu pai, pois ele a queria para esposa. Branca de Neve aceitou, e quando chegaram ao palácio celebraram-se as bodas o mais rapidamente possível, com o esplendor e magnificência adequados a tão feliz sucesso."

O pedaço da maçã, que Branca de Neve não engoliu e, portanto, não se tornou parte dela é um último vestígio do mundo que nela se mantinha, de certo modo, sobreposto. Ele é retirado com a presença do príncipe. O Espírito, então, dá a forma final à alma.


E a Rainha má?


"A rainha má a princípio resolveu não ir às bodas, mas depois não pode resistir ao desejo de ver a jovem Rainha, e, quando entrou e reconheceu Branca de Neve, de tanta raiva, e de tanto assombro, ficou como pregada no chão. Levaram-lhe então, seguros por uma tenazes, uns sapatos de ferro, aquecidos em brasa, e com eles a rainha teve que bailar até cair morta."

O mundo manifestado, feito de agitação e desejo, esgota-se em seu próprio movimento, quando posto em frente da unidade do Espírito. O casamento, símbolo da unidade e do encontro de opostos toma aqui uma acepção específica: é a união da alma com Espírito. União, impossível de acabar porque é feita de uma felicidade absoluta que está além e acima da impermanência do mundo. Por isso os contos iniciáticos acabam com a expressão e viveram felizes para sempre. Quando confrontado com a imobilidade do Princípio, o movimento é puro nada.

É bom lembrar que o sapato tem entre suas acepções simbólicas duas principais: é, primeiramente, representação do viajante e, portanto, do movimento. Simboliza não só a viagem para o outro mundo, mas a caminhada em todas as direções, neste mundo mesmo. Em segundo lugar, é uma prova da identidade da pessoa, como em Cinderela, que é reconhecida pelo príncipe porque seu pé cabe num sapatinho de cristal. Na história de Branca de Neve, o pé da rainha má cabe num sapato de ferro em brasa. Enquanto a delicadeza do cristal é a marca da identidade de Cinderela, a rainha má é reconhecida pelo peso, dureza e densidade do ferro. Não posso deixar de pensar na Idade de Ferro, descrita em todas as tradições como uma época de agitação, velocidade e materialização, que será seguida pela Idade de Ouro onde reinará a sabedoria do Espírito. Os ciclos de desenvolvimento dos seres humanos se estruturam da mesma maneira que os grandes ciclos cósmicos. Assim como em cima, embaixo.

O símbolo deve pertencer sempre de uma ordem inferior à daquilo que é simbolizado; assim as realidades do domínio corporal, que são as de ordem mais baixa e mais estreitamente limitadas, não são simbolizadas por coisa alguma porque tal símbolo é completamente desnecessário, já que elas podem ser apreendidas diretamente por qualquer um. Por outro lado, qualquer fenômeno ou acontecimento, (por mais insignificante que seja), devido à correspondência que existe entre todas as ordens de realidade, pode ser tomado como símbolo de algo de ordem superior, da qual ele é de certo modo uma expressão sensível, pois que deriva dela do mesmo modo como uma conseqüência deriva de seu princípio.
NOTAS:

1. Grimm, Os mais belos contos de fada de Grimm, tradução de Maria Lúcia Pessoa de Barros, Editora Vecchi, Rio de Janeiro, p.p. 27.

2. René Guénon, Aperçus sur l'Initiation, Éditions Traditionnelles, 1953, pp. 265.

3. A Ars Regia, outro nome da alquimia, faz parte dos chamados pequenos mistérios.

4. Vale lembrar aqui que uma das caraterísticas mais marcantes da época atual, assinalada tanto por sociólogos quanto por filósofos, é a perda da unidade dos valores estéticos, éticos-religiosos e cognitivos.

5. Uma corça ou um javali, dependendo da versão da história. É bom lembrar que o javali é um símbolo tradicional da casta sacerdotal e da autoridade espiritual, especialmente no ciclo de histórias da Távola Redonda.

6. Notem que depois da corrida na floresta, Branca de Neve dorme na cama do sétimo anão.

7. A iluminação descrita no conto refere-se ao nível de consciência própria do homem ordinário que se caracteriza pelo mental. É, portanto, no domínio da mentalidade que deve se operar a primeira retificação. É muito marcante que em tudo que constitui o que se chama civilização moderna ( que é uma imagem muito completa do reino da Rainha má) se encontre facilmente o artificial, o desnaturado e o falsificado. Não precisa de muita lógica para entender que, se as coisas deste mundo são assim artificiais, a mentalidade mesma que corresponde a esse estado de coisas deva ser também de certo modo fabricada e não expontânea. Com essa chamada de atenção dá para se ver a ligação existente entre a mentalidade humana e o mundo que ela produz e que lhe corresponde. Isto tudo aparece neste mundo de final de milênio em que vivemos, na medida em que o ponto de vista profano preside à produção da civilização moderna, num ciclo vicioso em que ele é a causa e a conseqüência dessa civilização, a qual tem, de modo marcante, condicionado e influenciado o desenvolvimento do pensamento e da mentalidade geral sempre em termos quantitativos. É evidente que o primeiro passo para romper esse ciclo vicioso está na revisão dos pontos de vista e das convicções pessoais adquiridas, devendo tudo ser feito dentro do balizamento e da referência de uma perspectiva espiritual verdadeira, com raízes doutrinais sólidas o bastante para instruir uma prática completa com princípio, meio e fim.

8. Apesar do ouro ser, sem dúvida, um corpo como os outros metais, nele a massa, a densidade e a divisibilidade própria dos corpos estão transmudadas em pura qualidade simbólica.

9. Paul Diel, O Simbolismo na Mitologia Grega, Attar Editorial, São Paulo, 1991, pp. 199.

Texto do Astrólogo Cid de Oliveira.

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